05/11/2021 às 08h53min - Atualizada em 05/11/2021 às 08h53min

Estabilização da pandemia em patamar elevado desafia o RS

Especialistas recomendam combinação entre prevenção e vacinas

O avanço da vacinação ajudou a derrubar as internações e notificações de óbitos por coronavírus desde o pico da pandemia, em março. Mas, nas últimas semanas, os gaúchos passaram a conviver com uma situação de estabilidade da doença em um nível classificado por infectologistas e epidemiologistas como ainda elevado.

A mortalidade, que vinha caindo de forma significativa, passou a variar próximo de 20 vítimas diárias desde setembro, enquanto as hospitalizações por covid-19 se mantêm acima de 400 pacientes tanto em leitos clínicos quanto em vagas de UTI. Especialistas apontam que esse cenário recente é fruto de um equilíbrio entre a continuidade da imunização, de um lado, em oposição ao aumento da circulação de pessoas e da diminuição de medidas preventivas de outro.

– A perspectiva nunca foi de erradicação (da doença). Mas o que está havendo é que a pandemia se estabilizou aqui no Rio Grande do Sul em um nível que ainda não é baixo. Temos muitas pessoas hospitalizadas, muitas infecções e mortes. Está ocorrendo um equilíbrio de forças entre a vacinação, que protege em parte, mas não 100% para infecção, e o relaxamento de medidas não-farmacológicas, como distanciamento e uso de máscara – avalia o infectologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alexandre Zavascki.

Dados do Ministério da Saúde indicam que a média de óbitos diários por data de notificação chegou a 328 em março e recuou para perto de 80 no começo do segundo semestre no Estado, quando ainda mantinha tendência de intenso declínio. Em agosto, já havia caído pela metade e, no começo de setembro, chegou a um patamar próximo a 20 registros na média calculada para os sete dias anteriores. Mas, desde então, embora a vacinação siga avançando, essa cifra tem oscilado para cima e para baixo, sem se distanciar muito deste padrão ou revelar uma nova tendência com clareza.

A situação é semelhante quando se observam as internações hospitalares. Ao longo de outubro até o começo deste mês, os pacientes com covid ocupam algo em torno de 450 leitos em alas clínicas e outro tanto em setores de terapia intensiva.

Um documento de novembro de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS) chamado Considerações para Implementar e Ajustar Medidas Sociais e de Saúde Pública no Contexto da Covid-19 estabelece como parâmetro uma média semanal inferior a uma morte por cem mil habitantes para ser enquadrado como “baixa incidência”. Desde a metade do mês passado, essa cifra oscila entre 1,2 e 1,6 no Estado.

Zavascki lembra, porém, que indicadores estabelecidos antes do início da vacinação devem ser revisados para um cenário em que a imunização gera uma expectativa de menos óbitos em comparação a momentos anteriores da pandemia.

O doutor em Matemática e professor da UFRGS Álvaro Krüger Ramos observa que uma primeira meta a ser buscada no Estado seria reduzir a média de vítimas diárias de 20 para 12. Esse número foi projetado por Ramos com base em critérios da OMS para considerar um nível de transmissão do vírus como "baixo" e uma letalidade estimada de 2%.

–  Não estamos tão longe desse patamar, considerando que já tivemos uma média superior a 300 óbitos diários, mas é como uma dieta: os quilos finais são os mais difíceis de perder – compara Ramos.

Especialistas recomendam combinação entre prevenção e vacinas

Médicos afirmam que é necessário manter a adesão à campanha de vacinação para que o Estado alcance índices ainda maiores de imunização completa e reforçar ações não-farmacológicas, como distanciamento social e uso de máscaras, para voltar a reduzir casos, hospitalizações e mortes por covid-19 de forma significativa.

Nesta quinta-feira (4), 78,8% dos gaúchos haviam tomado pelo menos uma dose contra o coronavírus, e 61,9% estavam com esquema vacinal completo. Até o surgimento de variantes mais transmissíveis, como a Delta, se acreditava ser necessário atingir algo em torno de 70% a 75% da população integralmente protegida para barrar a circulação do vírus. Depois disso, há avaliações de que esse patamar deveria chegar a pelo menos 90%.

– Não dá para apostar tudo na vacina para conter a circulação do vírus, precisamos também de medidas não farmacológicas, mas um dos desafios a serem cumpridos, sem dúvida, é a vacinação em massa mesmo – avalia o infectologista Alexandre Zavascki.

Uma das formas de elevar ainda mais a cobertura dos imunizantes, além de manter o cronograma de aplicação de segundas doses e doses de reforço, seria incluir as crianças entre o público-alvo da campanha de imunização. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deverá se manifestar sobre isso nas próximas semanas. A Pfizer já obteve autorização para aplicar seu produto na faixa etária de cinco a 11 anos nos EUA, e pretende encaminhar ainda neste mês uma solicitação à Anvisa para seguir o mesmo protocolo entre os brasileiros.

O infectologista Ronaldo Hallal, membro da Sociedade Rio-Grandense de Infectologia, afirma que é difícil prever o comportamento da pandemia nas próximas semanas entre os gaúchos porque isso depende de uma combinação complexa de fatores, como manutenção da vacinação, uso de máscaras, distanciamento social e tempo desde que foi completado o esquema vacinal – já que pode haver diminuição da proteção após um certo período.

– Principalmente entre os mais idosos e quem tem imunidade mais afetada, há uma certa transitoriedade na produção de anticorpos neutralizantes capazes de de impedir o adoecimento.

GZH


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