27/09/2022 às 11h20min - Atualizada em 27/09/2022 às 11h20min

No RS, uma a cada quatro crianças de até seis anos está em situação de pobreza

Gaucha ZH
Uma a cada quatro (24%) crianças gaúchas de zero a seis anos vive em situação de pobreza, mostra a mais recente pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), divulgada nesta terça-feira (27). Conforme dados do ano passado, são 208,8 mil gaúchos na primeira infância que vivem com renda per capita de menos de US$ 5,50 por dia, o equivalente a R$ 1.868 ao mês para uma família de quatro pessoas, conforme valores da época. Para dimensionar o poder de compra de quem vive com tal renda, a cesta básica de Porto Alegre custava, na metade do ano passado, R$ 642, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos (Dieese) consultados por GZH.
O estudo, produzido pelo PUCRS Data Social: Laboratório de desigualdades, pobreza e mercado de trabalho, ainda mostra que 3,4% dos gaúchos de até seis anos (32,4 mil indivíduos) estão em situação de extrema pobreza. Tal condição ocorre quando a renda per capita é de menos de US$ 1,90 dólar ao dia, ou R$ 644 por mês para uma família de quatro pessoas. Os pesquisadores usaram dados de 2021 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc). O valor para definir situação de pobreza e pobreza extrema aplica parâmetros do Banco Mundial.
A presença de pobreza entre crianças gaúchas está bem abaixo da média nacional e é a segunda menor do Brasil, atrás apenas de Santa Catarina. No Brasil, 44,7% das crianças de zero a seis anos são pobres (7,8 milhões de pequenos) e 12,7% (2,2 milhões), vivem em extrema pobreza.
No Nordeste, todos os Estados, menos o Ceará, têm pelo menos 60% das crianças pobres na primeira infância. O pior cenário do país é no Maranhão, onde quase 72% das crianças são pobres. Apesar de os números regionais soarem alentadores, os autores do estudo destacam que o número de crianças pobres é alto demais para o Rio Grande do Sul, tido como um dos Estados mais ricos do país. As estatísticas indicam que, mesmo em regiões de maior renda, a desigualdade social é grande e aflige a população.
— A colocação do Rio Grande do Sul é melhor do que a média brasileira. Agora, 24% de crianças de pobres é um número confortável? Não é. Nenhum Estado brasileiro apresenta número confortável de pobreza infantil. Antes da pandemia, eram números melhores — comenta o economista Ely José de Mattos, professor da PUCRS e autor da pesquisa.
Em 2014, segundo a pesquisa, o Rio Grande do Sul tinha 23,6% de crianças pobres, o que indica que o cenário piorou com a pandemia de coronavírus.  Os dados mostram também que, quanto mais anos de estudo dos pais, menor a pobreza entre os filhos. Nas famílias acima da linha de pobreza, 69% dos chefes de família tinham ao menos o Ensino Médio. Mas, quando a criança estava abaixo da linha de pobreza, só 46% dos chefes de família haviam terminado a escola. O percentual cai para 41,7% entre as crianças extremamente pobres.  Os dados preocupam porque estudos na área da saúde mostram que crianças com fome e poucos recursos têm prejuízo na formação da arquitetura cerebral — o que dificulta cognição, aprendizagem, memória e foco, prejudicando, no futuro, a ascensão social.
Esse fenômeno explica a vantagem no mercado de trabalho de adultos criados em ambientes estimulantes em comparação a pessoas com menor bagagem cultural e cognitiva, educadas em lares mais vulneráveis.
O sociólogo e professor André Salata, um dos autores do estudo, ressalta que são fartas as pesquisas na área de economia e sociologia apontando que crianças pobres têm menos chances de ascensão social — no futuro, correm mais risco de estudar menos, ganhar pouco, engravidar cedo e entrar para o crime.
— A gente sempre pensa na insegurança alimentar, o que está presente, mas importa também a capacidade dos pais de fornecerem estímulos necessários para o desenvolvimento da criança. Isso impacta na formação cerebral, na acumulação de capital cultural e no desenvolvimento de autoconfiança e resiliência — diz Salata.
Os pesquisadores também identificaram que, em 2020, durante o período de auxílio emergencial da pandemia, a pobreza caiu entre crianças, mas voltou a subir em 2021, quando o programa perdeu força. Para combater o cenário, os pesquisadores sugerem fortalecer políticas públicas voltadas aos mais vulneráveis.
— É importante garantir a sustentabilidade de longo prazo dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, agora chamado Auxílio Brasil. E precisamos fortalecer a Educação Infantil pública, em especial creches para crianças de até três anos — diz Salata.
A pobreza é mais presente no campo do que na cidade. No Rio Grande do Sul, 38,7% das crianças da zona rural são pobres, enquanto que, na zona urbana, são 21,6%. No país, quase 70% das crianças do Interior são pobres. A diferença de pobreza a depender da geografia já é conhecida na área acadêmica e ocorre porque, no Interior, a oferta de trabalho e o acesso a políticas públicas de assistência são menores do que em grandes cidades.
A raça também faz parte do fenômeno de desigualdade social, tanto a nível nacional quanto regional. Crianças negras são mais pobres do que as brancas, e a distância cresce ainda mais entre as extremamente pobres.
— A população negra está mais concentrada em classes de renda mais baixas. Como há maior concentração de crianças nas classes mais baixas, a conta acompanha — acrescenta o economista Ely de Mattos.
— O prejuízo de enfrentar situações de privação na primeira infância é para vida toda. Deixa sequelas que vão durar décadas — sublinha o pesquisador.

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