A cena é cada vez mais comum nas ruas do Rio Grande do Sul: um policial militar com uma pequena câmera acoplada ao uniforme, na altura do peito, pronta para registrar, ou já registrando, tudo o que acontece ao seu redor. O equipamento, que parece discreto, faz parte de uma revolução tecnológica que vem transformando a rotina da Brigada Militar (BM) e já acumula cerca de 1,4 milhão de vídeos desde a sua implantação, em setembro de 2024.
A implementação das câmeras corporais começou de forma gradual, ainda no segundo semestre do ano retrasado, até alcançar todos os batalhões de Porto Alegre. “A gente começou com poucos policiais, foi ampliando aos poucos, justamente para mostrar que o objetivo não era ficar assistindo o tempo todo, mas dar suporte e entender o que está acontecendo nas ruas”, explica o capitão Lucas Destro, hoje chefe da Seção de Correição do Comando de Policiamento da Capital (CPC).
Mais do que um simples dispositivo de gravação, a câmera corporal passou a integrar o próprio protocolo de atuação policial. Atualmente, todo agente que sai para o patrulhamento leva consigo o equipamento, da mesma forma que sua arma, seu colete e demais ferramentas de trabalho. Com o policial também está a responsabilidade de decidir quando e como registrar uma ocorrência no sistema, que atua na produção de provas em tempo real.
Implementação começou de forma gradual, ainda no segundo semestre de 2024, até alcançar todos os batalhões de Porto Alegre Implementação começou de forma gradual, ainda no segundo semestre de 2024, até alcançar todos os batalhões de Porto Alegre | Foto: Mauro Schaefer
Rotina x Intenção
O funcionamento das câmeras é dividido em dois modos principais, que acompanham o ritmo do trabalho policial. O mais utilizado é o chamado “modo rotina”, acionado no momento em que o militar inicia sua jornada, ainda no batalhão.
Essa modalidade permanece ligada em todo o turno e pode ser identificada pela luz vermelha emitida pelo equipamento. Durante patrulhamentos sem ocorrência em andamento, a câmera grava imagens sem áudio e sem geolocalização. É um registro mais leve, que preserva momentos do dia a dia e que não pode ser acessado remotamente em tempo real, para não invadir a privacidade do agente. “Eu não posso acessar esse modo, porque não sei se o policial está no banheiro ou em uma situação pessoal, conversando sobre um assunto pessoal. Isso não nos interessa”, resume o capitão.
Já no momento em que algo acontece, como uma abordagem, verificação de denúncia ou ocorrência em andamento, o policial aperta um botão e aciona o “modo intencional”. A partir daí, o cenário muda e a câmera passa a gravar com áudio, GPS e alta definição. O acionamento é simples e dois cliques são suficientes para mudar o status da gravação. Com o modo intencional ligado, também há possibilidade de que o comando possa acompanhar em tempo real o que está acontecendo.
Fidelidade ao registro
Além disso, o sistema recupera automaticamente até dois minutos anteriores ao acionamento, garantindo que detalhes iniciais da ocorrência não se percam. “Mesmo que ele demore alguns segundos para apertar o botão, a câmera já recupera o que aconteceu até dois minutos antes. Isso dá muito mais fidelidade ao registro”, afirma Destro. Na prática, isso significa que o contexto anterior também estará registrado. É uma espécie de “memória retroativa”, que transforma cada ocorrência em um registro mais completo e fiel. Outro ponto central do sistema é que, uma vez acionada no modo intencional, a gravação só é encerrada ao fim da ocorrência.
“Ele só vai desligar quando o militar entregar o preso na delegacia e encerrar o atendimento. Até lá, tudo precisa estar registrado”, detalha.
Ainda assim, existem situações específicas em que o policial pode desacoplar a câmera do uniforme, mas nunca desligá-la. Casos como ida ao banheiro, revista íntima, atendimento envolvendo menores ou determinação de autoridade justificam a retirada do equipamento do campo de visão. “Ele pode desacoplar, mas nunca desligar. Tudo isso precisa ser informado e justificado. A ideia é reduzir ao máximo as brechas”, diz o capitão.
Turno de trabalho passa pela câmera
A rotina dos policiais também foi adaptada à nova tecnologia. Cada agente utiliza a câmera durante turnos de 12 horas e o sistema exige uma logística específica. Para cada agente em serviço, há um equipamento em uso, outro em carregamento e um terceiro preparado para o próximo turno. A necessidade operacional ajuda a explicar o número de equipamentos disponíveis.
Embora cerca de 450 policiais utilizem diariamente as câmeras em seis cidades gaúchas, o total de dispositivos chega a 1.250. “Se eu tenho 350 policiais na rua, preciso ter outros 350 carregando e mais 350 preparados. Não posso correr o risco de faltar equipamento em caso de algum problema”, explica Destro. Cada câmera leva cerca de quatro horas para recarregar completamente.
Em caso de ocorrência, ferramenta só pode ser desligada na delegacia, com entrega do preso e fim do atendimento Em caso de ocorrência, ferramenta só pode ser desligada na delegacia, com entrega do preso e fim do atendimento | Foto: Mauro Schaefer
Do corpo à nuvem
Atualmente, os policiais que utilizam diariamente as câmeras estão em seis municípios, incluindo Porto Alegre e outros na Região Metropolitana. Ao fim do turno, não há necessidade de transferir manualmente os arquivos. As imagens são automaticamente enviadas para um servidor em nuvem, onde ficam armazenadas com segurança e sem possibilidade de edição. Cada vídeo recebe um identificador único e uma espécie de “marca d’água digital”, que garante a autenticidade do material.
“Qualquer acesso ou tentativa de alteração deixa um rastro. Inclusive, aparece o nome de quem acessou. Isso dá segurança para o policial de que nada será manipulado ou vazado sem controle”, afirma.
Para cada agente em serviço, há um equipamento em uso, outro em carregamento e mais um pronto para o próximo turno Para cada agente em serviço, há um equipamento em uso, outro em carregamento e mais um pronto para o próximo turno | Foto: Mauro Schaefer
Armazenamento
As gravações registradas no modo rotina permanecem armazenadas por 90 dias, quando automaticamente são descartadas, caso não tenha sido solicitadas por eventual denúncia ou necessidade de verificação. “São imagens que, em princípio, não interessam. Mas, se alguém solicitar dentro do prazo, elas ficam vinculadas à ocorrência até o fim da necessidade”, explica o oficial. Já os vídeos do modo intencional são armazenados por um ano, ou enquanto for necessário para utilização em processos ou investigação.
Esse avanço tecnológico também traz desafios, já que o volume de dados gerado pelas câmeras é significativo. Um vídeo de duas horas em modo intencional pode chegar a 3,7 gigabytes. Já os registros de rotina ocupam pouco mais de 200 megabytes. Para dar conta dessa demanda, a Brigada Militar optou por um sistema de armazenamento em nuvem, disponibilizado pela própria empresa fornecedora das câmeras corporais, que é o mesmo utilizado em grandes centros internacionais. “É o mesmo sistema usado em cidades como Nova Iorque e em países da Europa. A gente buscou algo que já fosse consolidado, para não correr riscos”, afirma Destro. O custo mensal por equipamento gira em torno de R$ 618, em um contrato que segue vigente até maio do próximo ano.
Expansão e próximos passos
Nos próximos meses, a tendência é de ampliação do uso das câmeras corporais no Rio Grande do Sul. Um convênio com o Ministério da Justiça prevê a aquisição de mais 1.745 equipamentos, com foco em cidades com mais de 100 mil habitantes, como Canoas, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Caxias do Sul, Santa Maria e Pelotas.
A estratégia da corporação, no entanto, é evitar implantações parciais. A ideia é equipar integralmente os efetivos das unidades contempladas, garantindo que o sistema funcione de forma padronizada e eficiente. “Alguns projetos no país deram errado porque colocaram poucas câmeras. Aqui, a lógica é fazer completo”, resume.
Mesmo com desafios logísticos, especialmente em regiões mais afastadas, onde a infraestrutura é limitada, a Brigada Militar aposta na consolidação da tecnologia como parte permanente do policiamento ostensivo. Unidades especializadas, como o Batalhão de Operações Especiais da Brigada Militar (Bope), por exemplo, ainda não utilizam o sistema, justamente pela dificuldade de garantir estrutura em deslocamentos constantes.
Com as ocorrências gravadas, policiais e cidadãos tendem a agir com mais cautela Com as ocorrências gravadas, policiais e cidadãos tendem a agir com mais cautela | Foto: Mauro Schaefer
Redução de conflitos
A presença das câmeras não impacta apenas o registro das ocorrências, mas também o comportamento nas ruas. Segundo a BM, há uma percepção tanto de redução de conflitos em abordagens e como de falsas denúncias de excessos em abordagens e prisões, que antes, sem o equipamento, eram mais recorrentes. A lógica é de que, sabendo que tudo pode ser gravado, tanto policiais quanto cidadãos tendem a agir com mais cautela.
“No início, todo mundo fica mais contido. Depois vira natural. É o que eu chamo de teoria do reality show”, diz Destro.
Com mais de um ano de operação, o sistema também atingiu um ponto de equilíbrio no volume de dados. “A gente chegou num platô. Os vídeos mais antigos começam a sair enquanto novos entram. Praticamente, não há aumento no volume de armazenamento”, detalha o capitão.
Para além da percepção de redução de conflitos, o sistema também fortalece investigações internas e processos judiciais. As imagens podem ser acessadas por corregedorias e autoridades responsáveis, servindo como prova em casos de denúncias, abordagens contestadas ou ações policiais questionadas. O acesso, no entanto, é restrito. “São poucos oficiais que têm acesso, e sempre com registro. As principais consultas são feitas pela corregedoria ou pela área técnica. Não é algo aberto”, conclui.