06/06/2023 às 10h04min - Atualizada em 06/06/2023 às 10h04min

Destruição de barragem no sul da Ucrânia provoca inundações e ameaça maior usina nuclear da Europa

Gaucha ZH
A destruição da barragem da usina hidrelétrica Nova Kakhovka, no sul da Ucrânia, na madrugada desta terça-feira (6) provocou a retirada de milhares de pessoas das localidades próximas em razão do risco de inundações.  De acordo com o governo ucraniano, quase 16 mil pessoas estão sob risco. Moscou afirmou que 14 localidades, nas quais moram mais de 22 mil pessoas, estão nesta situação, mas afirmou que o cenário está sob controle. A usina fica na região de Kherson, uma área atualmente ocupada pela Rússia.  Russos e ucranianos trocaram acusações a respeito da autoria dos bombardeios. A barragem foi parcialmente destruída por "múltiplos ataques" ucranianos, denunciaram as autoridades designadas por Moscou.  Autoridades ucranianas acusaram a Rússia de ter destruído a barragem para tentar "frear" a contraofensiva que Kiev prepara para recuperar territórios perdidos no sul e leste do país.
— O objetivo dos terroristas é evidente: criar obstáculos para as ações ofensivas das Forças Armadas ucranianas — declarou Mikhailo Podoliak, conselheiro da presidência.
O governo ucraniano fez ainda um alerta. Segundo o governo de Volodimir Zelensky, a destruição de Nova Kakhovka aumenta rapidamente o risco de uma "catástrofe nuclear" na central de Zaporizhzhia, que usa água da represa atingida para sua refrigeração, mas a Rússia e a Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA) descartaram um perigo imediato.
Volodimir Zelensky, convocou uma reunião do Conselho de Segurança Nacional depois do "crime de guerra" russo, afirmou seu chefe de gabinete, Andriy Yermak.
A Ucrânia chamou a Rússia de "Estado terrorista" na Corte Internacional de Justiça (CIJ). O ataque contra a barragem de Kakhovka "provocou a retirada de civis e graves danos ecológicos", declarou o representante de Kiev, Anton Korinevich, na principal jurisdição da Organização das Nações Unidas (ONU).
— As ações da Rússia são as ações de um Estado terrorista, de um agressor — acrescentou.
O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, disse que a Rússia prestará contas pela destruição de uma infraestrutura civil, o que ele também classificou de "crime de guerra". O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, criticou a "brutalidade" da Rússia após a destruição da barragem hidreléctrica.
Inundações e risco nuclear
O comandante militar ucraniano em Kherson, Oleksander Prokudin, disse que várias localidades ficaram "completamente ou parcialmente inundadas" e a população começou a abandonar a região.
"Quase 16 mil pessoas estão na zona crítica, na margem direita da região de Kherson", afirmou Prokudin nas redes sociais.
Do outro lado, o governador de Kherson nomeado pela Rússia, Andrey Alekseyenko, disse que nenhuma grande cidade está sob ameaça de inundação após o aumento de entre "dois e quatro metros" do nível da água.
A barragem de Kakhovka, tomada no início da ofensiva russa na Ucrânia, abastece a península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014, e também fornece água de resfriamento para a central nuclear de Zaporizhzhia. Por este motivo, Podoliak alertou que o risco de "catástrofe nuclear" na central, a maior da Europa, "aumenta rapidamente" após a destruição parcial da barragem. Os alertas foram rebatidos pelo governante russo local e pela AIEA.
"Os especialistas da AIEA na central nuclear de Zaporizhzhia estão monitorando de perto a situação. Não há risco imediato para a segurança nuclear na central", tuitou a agência da ONU.
Os danos à barragem aconteceram após um dia marcado por informações contraditórias: a Ucrânia reivindicou avanços ao redor da cidade de Bakhmut, no leste do país, e a Rússia anunciou que impediu um ataque em larga escala em Donetsk.
A vice-ministra ucraniana da Defesa, Ganna Maliar, disse que Bakhmut permanece como o "epicentro das hostilidades". "Estamos avançando em um front bastante amplo", destacou.
Maliar também admitiu que as tropas ucranianas estão "executando ações ofensivas" em alguns pontos do front, mas sem revelar detalhes.
Silêncio sobre a contraofensiva
A Ucrânia prepara há vários meses uma contraofensiva para tentar recuperar os territórios perdidos para a Rússia desde o início da invasão, mas o governo destacou que não anunciaria o local nem a data de início da operação. O conflito ficou ainda mais tenso nas últimas semanas, com o aumento dos ataques nos dois lados da fronteira com a Rússia.
Os analistas militares acreditam que as forças ucranianas pretendem testar as defesas da Rússia para encontrar seus pontos fracos antes do início de uma contraofensiva em larga escala.
Na segunda-feira, o ministério da Defesa da Rússia anunciou que impediu, no domingo (4), uma "grande ofensiva" em cinco pontos do sul da região de Donetsk.
A pasta afirmou que suas tropas mataram "mil e quinhentos soldados" ucranianos e destruíram mais de cem veículos blindados.
Porém, o fundador do grupo paramilitar russo Wagner, Yevgueni Prigozhin, chamou as versões de Moscou de "fantasias" e disse que as forças ucranianas avançaram na cidade de Bakhmut, que Moscou afirma ter conquistado em maio.
O polêmico empresário mantém uma disputa pública com o exército e já acusou os comandantes militares pela falta de munição para as tropas do grupo Wagner.
Zelensky agradeceu às tropas pelos avanços nas proximidades de Bakhmut e chamou a reação de Moscou de "histérica".
— O inimigo sabe que a Ucrânia vai vencer — declarou.
Nova Kakhovka
A represa, sobre o rio Dnieper e a 150 quilômetros de distância da central nuclear de Zaporizhzhia, está na linha de frente entre as regiões controladas por Moscou e o restante da Ucrânia.
O dique da barragem, de concreto e terra, tem 16 metros de altura e 3.273 metros de comprimento. É uma das maiores infraestruturas do tipo na Ucrânia. A central hidrelétrica tem uma potência de 334,8 megawattss, segundo a operadora ucraniana Ukrgidroenergo.
Construída em 1956, durante o período soviético, a represa hidrelétrica de Kakhovka permite enviar água para o canal da Crimeia do Norte, que começa no sul da Ucrânia e atravessa toda a península da Crimeia, ocupada e anexada por Moscou desde 2014.
Na mesma área fica o reservatório de Kakhovka, um depósito de água artificial formado no rio Dnieper, com 240 km de comprimento e até 23 km de largura.

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