09/01/2020 às 15h39min - Atualizada em 09/01/2020 às 15h39min

Confira os prejuízos causados pela estiagem à agricultura no Estado

Ainda que seja imprevisível dizer, no momento, o tamanho dos danos econômicos causados pela atual estiagem sobre a economia gaúcha, diferentes e importantes culturas gaúchas já acionaram o sinal amarelo para os prejuízos. Em alguns casos, até o vermelho. Além dos danos mais aparentes no milho e os riscos para a soja, a falta de chuva aliada ao calor excessivo também impacta na pecuária de corte e de leite, na avicultura e nas plantações de tabaco. Tudo isso, somado, tem impacto direto na economia do Estado como um todo e pode afetar o Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho neste primeiro trimestre do ano.

Mesmo que em fase inicial, e podendo ser atenuada nos próximos dias com o retorno de precipitações nesta e na próxima semana, a continuidade de dias de temperaturas elevadas e ausência de chuva sempre deixa o Rio Grande do Sul em alerta. Especialmente quando alguns danos já são irreversíveis. Nesta quinta-feira (9) a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS), por exemplo, divulgou perdas de 13% na soja e de 33% no milho, em números pesquisados pela Rede Técnica Cooperativa (RTC), junto a departamentos técnicos das cooperativas agropecuárias gaúchas.

Como o Estado tem 10% de seu PIB no setor primário - e cerca de 40% vinculado ao agronegócio como um todo, de acordo com a Federação da Agricultura (Farsul), os gaúchos já amargaram ao menos quatro baques na circulação de recursos oriundos do campo nos últimos 15 anos. “O maior impacto foi na estiagem de 2004 e de 2005, porque vieram em sequência. Depois tivemos danos em 2008 e o último registro foi em 2012”, lista Martinho Lazzari, pesquisador do Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento (DEE/Seplag)

Lazzari diz que desde então o Estado nunca mais se recuperou. Isso porque enquanto a economia brasileira tem somente cerca de 5% de seu PIB impactado diretamente pelo setor primário, o Rio Grande do Sul tem o dobro. De acordo com o pesquisador, em 2003 o Estado representava 6,95% do PIB nacional, caiu para 6,7% em 2004, 6,28% em 2005, 6,12% em 2008 e ficou em 5,97% na seca de 2012.

“A sequência de duas estiagens entre 2004 e 2005 derrubou o Estado no ranking da participação no PIB, se seguiu em 2008 e 2012 e nunca mais retornamos ao patamar de 2003”, explica Lazzari.

Outra forma de comparar a relevância do agronegócio no PIB gaúcho é o índice de crescimento em anos de seca e estiagem, o que sempre fica aquém do nacional nestes eventos. Em 2005, por exemplo, o PIB gaúcho caiu 2,7% enquanto a média nacional foi de uma alta de 3,2%, de acordo com dados do IBGE. Economista da Farsul, Antônio da Luz explica as razões para que os impactos do clima na econômica gaúcha serem tão evidentes.

“A cada R$ 1 movimentado no campo, R$ 3,20 são gerados fora dele, a partir da produção rural. Ou seja, cada R$ 1 vira, ao todo, R$ 4,20”, calcula Luz.

Isso porque, basicamente, para plantar o produtor investe em semente, em fertilizante, no transporte, em combustível, máquinas, energia e em uma infinidade de outras atividades, rurais e urbanas. Movimenta comércio, indústria e serviços, sem falar das exportações. E é por esse círculo virtuoso que o Estado está em alerta e dele não deverá sair tão cedo. Luz destaca que quanto menos dinheiro gerar o núcleo dessa engrenagem (a agropecuária), menos riqueza sobra para dividir entre todos os gaúchos. As perdas existem, algumas irreversíveis, assegura o economista, e não são pequenas.

“Não temos como falar em nenhum número antes dos levantamentos da Emater. Ainda não sabemos o tamanho da perda e ainda temos muito pela frente. Se chover agora, evita prejuízos maiores ao Estado, mas nada está garantido até maio”, ressalta Luz.

Baixa produtividade do tabaco penaliza produtores gaúchos

A Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), que está finalizando levantamento sobre as perdas dos produtores de tabaco no Estado, já sinaliza que a produção deste ano no Rio Grande do Sul foi seriamente comprometida pela estiagem. De acordo com o Paulo Ogliari, gerente técnico da entidade, avalia que a produtividade no Estado deverá ficar abaixo do 2 mil quilos por hectare, ante os 2,2 mil do ano passado, que já foi um ano de perdas.

“O ano passado também tivemos problemas climáticos, e a produtividade médio no Rio Grande do Sul ficou em 2.224 quilos. Neste ano, deve cair para próximo de 1.900. Isso é 29% menos do que um ano normal, como o de 2016/2017, quando se obteve 2.443 quilos por hectare”, lamenta Ogliari.

Aves têm menos ganho de peso e ração mais cara

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Dois problemas principais afetam a avicultura no momento: o calor faz as aves ganharem menos peso e a estiagem eleva o custo de um dos principais insumos do setor. José Eduardo dos Santos, diretor-executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (ASGAV), explica que a quebra na safra eleva o preço do milho, e justamente quando os animais estão com a conversão alimentar reduzida pelo calor. Ou seja, as aves precisam comer mais para chegar ao peso ideal justamente em um momento em que o valor do milho está em alta.

“Estamos encaminhando ao Ministério da Agricultura pedido para que sejam ampliados os leilões dos estoques de milho. O setor já se programa para importar, além de Argentina e Paraguai, até mesmo dos Estados Unidos”, alerta Santos.

O documento com a elevação dos custos do setor e os consequente prejuízos deve ser encaminhado à ministra Tereza Cristina ainda nesta sexta-feira, estima o representante da Asgav.

“São 7,5 mil famílias trabalhando com avicultura no Estado, em regiões como os vales do Taquari e do Caí, além de Marau e Passo Fundo, por exemplo, e que não pode trabalhar no vermelho. No máximo, se consegue absorver 10%, 15% de alta, mais. Ou o produtor terá prejuízo”, lamenta Santos.

Pastagem é a dificuldade da pecuária de corte

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O pasto mais seco devido ao calor e falta de chuva também deixam em alerta os criadores de gado no Estado. Simone Bianchini, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Devon (ABCD), alerta que em situações adversas de tempo e clima, a orientação é eleger prioridades e remanejar algumas atividades na propriedade. Com ao seca reduz a disponibilidade e a qualidade de forragem, a recomendação de Simone é dar maior atenção às categorias mais exigentes, como os animais em crescimento.

“As novilhas e as vacas de primeira cria, chamadas primíparas, sofrem com a alimentação insuficiente. As mães perdem a condição corporal e isso tem reflexo no terneiro que elas amamentam e na taxa de repetição de cria. Consequentemente, teremos uma redução na quantidade de quilos dos terneiro desmamados”, diz a presidente da entidade.

Uma alternativa indicada por Lucas Hax, médico veterinário e diretor técnico da ABCD, é a utilização de suplementos proteicos para animais em crescimento e a utilização de desmame precoce nas chamadas primíparas (fêmea que teve seu primeiro parto ou vai parir pela primeira vez), o que auxilia na manutenção das categorias jovens e contribuem para o resultado da prenhez. A pouca disponibilidade de água também pode afetar a saúde do rebanho.

“A água limpa é muito importante. Se for suja ou insuficiente pode trazer problemas no melhoramento do plantel. Uma solução é abrir as porteiras entre os potreiros, para que o gado circule e procure a melhor água, apesar do contratempo que pode provocar no manejo do gado”, orienta a presidente Simone.

Presidente da Associação Brasileira de Angus, Nivaldo Dzyekansky, a estiagem inesperada também pode ser amenizada com irrigação, mas essas são medidas que exigem maior tempo de planejamento. O planejamento também é a recomendação para a segurança alimentar, com a formação de um estoque forrageiro (feno ou silagem) e suplementação animal. Outra ação destaca por Dzyekansky é o investimento em espécies forrageiras de maior qualidade e durabilidade.

“Precisamos planejar o negócio para garantir alimentação constante do gado, pois temos que entregar, de forma linear, de janeiro a dezembro, novilhos Angus para abate nos frigoríficos parceiros do Programa carne Angus”, afirma.

Captação de leite diminui ainda mais em janeiro

MARCELO G. RIBEIRO/JC

MARCELO G. RIBEIRO/JC

De acordo com o Sindicato da Indústria de Laticínios do RS (Sindilat), a captação de leite nas indústrias caiu na primeira semana de janeiro de até 10%. Isso representaria, de acordo com Darlan Palharini, secretário executivo do sindicato, 1 milhão a menos de litros a menos na captação diária dos sete primeiros dias de janeiro. Como agora o setor vive a entressafra do consumo (com queda normal na demanda) a grande preocupação do setor é com quebra na safra de milho que faz parte da silagem, e terá impacto mais adiante.

“Março, abril e maio não terá silagem. Então, ou diminuirá a produção de leite, por problemas na alimentação, ou o produtor terá que complementar com alimentação concentrada, o que aumenta custo de produção”, alerta Palharini.


Jornal do Comércio

 


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